Como se constrói um índice de ações?
Gestão Indexada

Como se constrói um índice de ações?

Duarte Correia·Analista de Portfolio Management2 de setembro de 20266 min de leitura

Principais Conclusões

  • 1

    Um índice tem três componentes: um critério de admissão, uma regra de ponderação e um calendário de revisão.

  • 2

    A ponderação aplica-se continuamente; a admissão, quando a metodologia o determina — nas datas de revisão, ou antes delas quando uma operação societária o obriga.

  • 3

    A ponderação por capitalização é a mais difundida, mas há alternativas: ponderação igual, por fundamentais do negócio, por preço, e com limites máximos por componente.

  • 4

    Num índice de capitalização, os pesos que resultam das variações de preço mantêm-se sem operações — o que não dispensa atualizar os restantes dados do cálculo. Nos outros modelos, têm de ser repostos.

  • 5

    Os critérios de admissão medem dimensão, negociabilidade, capital disponível em mercado, solidez contabilística e geografia. Não medem qualidade de gestão nem perspetivas de crescimento.

  • 6

    Nem o comité nem a regra automática dispensam critérios publicados. Diferem no espaço que deixam ao juízo.

  • 7

    Quando a admissão depende do valor de mercado, as entradas ocorrem depois de uma valorização e as saídas depois de uma desvalorização.

Um índice de ações é uma medida construída para representar um determinado universo de empresas. Por trás do valor que é publicado está uma lista de empresas e um peso atribuído a cada uma. Uma empresa não entra num índice por convite. Entra por cumprir critérios conhecidos de antemão, aplicados por quem publica o índice. São três as componentes que o definem: a regra que determina os pesos, os critérios que determinam a composição, e o calendário em que as alterações produzem efeito.

Um índice tem duas regras: quem entra e quanto pesa

É útil separá-las desde o início, porque funcionam de maneiras muito diferentes.

A regra de ponderação determina o peso de cada componente dentro do índice. A regra de admissão determina que empresas fazem parte dele.

A distinção que importa não é qual delas altera o índice — ambas o alteram. É quando. A ponderação opera de forma contínua, a partir de dados de mercado, sem que nada tenha de acontecer para que se aplique. A admissão incide sobre a lista de empresas e opera, em regra, nas datas de revisão previstas pela metodologia.

Em regra, porque há alterações que não esperam por elas. Uma fusão, uma aquisição ou a perda de cotação obrigam a ajustar a composição quando ocorrem, e várias metodologias preveem entradas antecipadas para admissões de dimensão excecional.


Ambas as regras foram definidas de antemão. Uma aplica-se todos os dias; a outra, quando a metodologia o determina.

Os pesos podem ser determinados de várias formas

A ponderação por capitalização bolsista é a mais difundida. O peso de cada empresa é proporcional ao seu valor de mercado, habitualmente ajustado para considerar apenas o capital disponível em mercado e não as participações que não circulam.

Tem uma consequência elegante: se uma empresa duplicar de valor enquanto as restantes ficam estáveis, o seu peso sobe sem qualquer decisão e sem qualquer transação. É também por isto que o grau de concentração de um índice se altera ao longo do tempo — quando as maiores empresas crescem mais depressa do que as restantes, o peso conjunto do topo aumenta por aritmética, sem que ninguém o decida.

Não é, porém, a única forma de atribuir pesos, e cada uma exprime uma ideia diferente sobre o que o índice deve representar:

  • Ponderação igual. Todos os componentes pesam o mesmo, independentemente da dimensão da empresa. O índice deixa de refletir o valor relativo das empresas e passa a tratá-las como observações equivalentes.

  • Ponderação por fundamentais. O peso resulta de medidas da dimensão económica do negócio — vendas, valor contabilístico, fluxo de caixa, dividendos — e não do valor que o mercado atribui à empresa.

  • Ponderação por preço. O modelo mais antigo: o peso é proporcional à cotação de cada ação, pelo que uma empresa pequena com uma cotação elevada pode pesar mais do que uma empresa grande com uma cotação baixa. Subsiste em índices históricos.

  • Ponderação com limites máximos. Sobre qualquer dos modelos anteriores pode aplicar-se um limite ao peso de cada componente, para que nenhum exceda uma percentagem definida.

A escolha tem uma consequência prática. Num índice de capitalização, os pesos relativos que resultam das variações de preço mantêm-se sem necessidade de qualquer operação, porque a regra é o próprio preço — o que não dispensa a atualização periódica dos restantes dados que entram no cálculo, como o número de ações em circulação e a parcela efetivamente disponível em mercado. Em qualquer dos outros modelos, os pesos afastam-se da regra à medida que as cotações se movem, e é preciso repô-los.


Num índice de capitalização, os preços fazem o trabalho. Nos restantes, é preciso fazê-lo.


Os critérios de admissão são publicados antes de serem aplicados

Os critérios que definem a composição variam de índice para índice, mas as categorias são reconhecíveis:

  • Dimensão — um valor de mercado mínimo, ou a posição da empresa num ranking de dimensão.

  • Negociabilidade — volume e liquidez suficientes para que a exposição seja replicável na prática.

  • Capital disponível em mercado — uma percentagem mínima do capital efetivamente transacionável.

  • Critérios contabilísticos — por exemplo, resultados positivos durante um período definido.

  • Geografia — o domicílio legal da empresa, o mercado onde está cotada, ou ambos.

  • Setor de atividade — quando o índice tem por objeto um setor, ou quando a metodologia procura equilíbrio entre setores.

  • Critérios temáticos ou de sustentabilidade — quando o universo é definido por outro atributo além da dimensão.

Vale a pena notar a natureza destes critérios. Medem dimensão, negociabilidade e um mínimo de solidez contabilística. Não medem qualidade de gestão, perspetivas de crescimento nem se a empresa está barata ou cara — porque a função de um índice é representar um universo, não selecionar o melhor dele.


Cumprir os critérios torna uma empresa elegível. Não a faz entrar.

Há dois modelos de decisão: o comité e a regra automática

O que separa a elegibilidade da entrada efetiva é o modelo de decisão, e pode ser de duas formas.

Em alguns índices, a composição é determinada por um comité, que aplica a metodologia publicada e reúne com a periodicidade prevista, ou quando um acontecimento o exige. Está vinculado aos mesmos critérios de elegibilidade que qualquer outro índice, e a sua margem incide sobre o que os critérios não resolvem sozinhos: os casos de fronteira, a oportunidade de uma alteração, a estabilidade da situação da empresa.

Noutros índices, a composição resulta de uma regra de aplicação automática, executada em datas fixas sobre todo o universo elegível, sem análise caso a caso. A regra é normalmente mais elaborada do que um limiar: pode ordenar as empresas e fixar um número de componentes, exigir condições diferentes para entrar e para permanecer, ou definir uma margem de tolerância em torno do corte, para que uma empresa próxima da fronteira não entre e saia a cada revisão.

Nenhum é superior. Trocam uma coisa pela outra: o comité pode evitar uma alteração que a aplicação literal da regra faria sem consequência, ao custo de ser menos previsível; a regra automática é inteiramente previsível, ao custo de não distinguir situações.

Nenhum dos dois modelos dispensa regras. Diferem no espaço que deixam ao juízo.

As alterações são, em regra, anunciadas antes de produzirem efeito

Decidida uma alteração à composição, ela não passa a valer de imediato. É comunicada publicamente com antecedência e tem uma data de execução definida, e só nessa data a composição publicada do índice muda.

O intervalo entre o anúncio e a execução tem uma função: torna a alteração conhecida antes de produzir efeito, e permite que uma carteira que replique o índice esteja alinhada com a composição nova na própria data em que ela passa a valer, em vez de a acompanhar com atraso.

A antecedência pode, porém, ser muito curta ou inexistente quando o motivo é urgente. Uma suspensão de negociação ou uma insolvência não esperam por um calendário.


Quando o critério é o valor de mercado, ele chega depois do movimento

Num índice em que a admissão depende do valor de mercado, e o valor de mercado é preço, uma empresa entra depois de ter valorizado e sai depois de ter desvalorizado. A ordem não pode ser outra: o preço só regista um movimento depois de ele acontecer.

Não é um defeito de construção — é o que decorre de usar uma medida de mercado como critério. E é uma das razões pelas quais existem metodologias que ancoram a admissão em medidas da dimensão do negócio, que se movem mais lentamente do que as cotações.


O critério de admissão não antecipa o movimento do preço. Regista-o, que é a função de uma medida.

Um índice é uma medida construída, não um retrato automático do mercado

Vale a pena regressar ao ponto de partida.

Um índice não observa o mercado do exterior. Aplica-lhe uma definição: este universo de empresas, selecionadas por estes critérios, com pesos atribuídos por esta regra, revistos nestas datas. Definições diferentes produzem índices diferentes sobre o mesmo mercado — e é por isso que existe mais do que um a representar a mesma economia.

Conhecer a regra é saber o que o índice vai fazer. E como as regras são publicadas, é uma das poucas coisas que, em investimento, se pode saber de antemão.


Um índice não descreve o mercado por si só. Descreve-o segundo uma regra — e a regra é conhecida.

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Resumo

Um índice de ações resulta de três componentes essenciais: critérios que definem que empresas podem integrá-lo, uma regra que determina o peso de cada componente e um calendário que estabelece quando as alterações produzem efeito. Neste artigo, explicamos como estas regras funcionam e o que determinam na composição de um índice.

Perguntas Frequentes

1O que é exatamente um índice de ações?

É uma medida construída para representar um universo de empresas, a partir de duas regras: um critério de admissão, que define quais o integram, e uma regra de ponderação, que define o peso de cada uma.

2Como é que uma empresa entra num índice?

Cumprindo os critérios de elegibilidade publicados — dimensão, negociabilidade, capital disponível em mercado, critérios contabilísticos e geográficos. Cumpri-los torna a empresa elegível; a entrada efetiva depende do modelo de decisão do índice e do momento em que a composição é revista.

3Quem decide a composição de um índice?

Depende do índice. Em uns, um comité aplica a metodologia publicada e decide o que os critérios não resolvem sozinhos, como os casos de fronteira. Noutros, uma regra automática é executada em datas fixas sobre todo o universo elegível, sem análise caso a caso. Nenhum dos dois dispensa critérios publicados.

4Todos os índices atribuem os pesos da mesma forma?

Não. A ponderação por capitalização bolsista é a mais difundida, mas existem índices de ponderação igual, ponderados por medidas da dimensão económica do negócio, ponderados pela cotação de cada ação, e índices que limitam o peso máximo de qualquer componente.

5Um índice seleciona as melhores empresas de um mercado?

Não é essa a sua função. Os critérios de admissão medem dimensão, negociabilidade e um mínimo de solidez contabilística, e o objetivo é representar um universo de forma fiel — não escolher as empresas com melhores perspetivas.

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Autor

DC

Duarte Correia

Analista de Portfolio Management

Analista de Portfolio Management na DC, com foco na construção, acompanhamento e otimização de carteiras de investimento alinhadas com os objetivos e perfil de risco de cada cliente.

Este artigo tem carácter exclusivamente educativo e informativo. Não constitui aconselhamento personalizado de investimento, recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, nem deve ser interpretado como tal.

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