Principais Conclusões
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Uma eleição não é uma previsão de mercado: mesmo conhecendo a data e os possíveis resultados eleitorais, é muito difícil antecipar como os mercados irão reagir.
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Tentar ajustar a carteira com base em política acrescenta incerteza: seria necessário acertar não só no resultado eleitoral, mas também nas consequências económicas e na reação dos investidores.
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O foco deve manter-se no longo prazo: decisões de investimento devem assentar nos objetivos, horizonte temporal e perfil de risco de cada investidor.
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A diversificação continua a ser essencial: uma carteira bem construída deve estar preparada para diferentes cenários, sem depender de previsões sobre acontecimentos políticos específicos.
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Disciplina é mais importante do que antecipação: manter a estratégia definida tende a ser mais consistente do que tentar entrar ou sair do mercado em função das eleições.
Com as eleições intercalares nos Estados Unidos a aproximarem-se, é natural que surjam dúvidas sobre o possível impacto nos mercados e sobre a necessidade de ajustar os investimentos. Mas até que ponto faz sentido tentar antecipar o resultado de uma eleição e a reação dos mercados? Neste artigo, exploramos por que razão decisões de investimento de longo prazo não devem depender de previsões políticas.
A 3 de novembro, os Estados Unidos realizam eleições intercalares, e uma pergunta tende a repetir-se junto de quem tem património investido: deve alterar-se alguma coisa antes ou depois do voto? Estão em causa a totalidade da Câmara dos Representantes, 35 dos 100 lugares do Senado e 36 cargos de governador, e o peso dos Estados Unidos nos índices de ações globais explica a atenção que o ato eleitoral suscita junto dos investidores europeus. A resposta é que não, e as razões são as que se aplicam a qualquer acontecimento cuja data é conhecida e cujo resultado não o é.
A data é conhecida com a mesma certeza que a de um eclipse; o de 12 de agosto, por exemplo, podia ter sido calculado com séculos de antecedência. O resultado de uma eleição, e sobretudo o que dele decorre para os mercados, pertencem a outra natureza de incerteza, a da meteorologia, que não permite previsões rigorosas para além de algumas semanas.
Poder-se-ia admitir que a dificuldade é meramente técnica e que modelos mais sofisticados a superarão. A diferença entre prever um eclipse e prever um mercado não reside, porém, na capacidade de cálculo, mas na natureza do objeto. Em 1987, na obra The Alchemy of Finance, George Soros designou este fenómeno por reflexividade: as convicções dos participantes alteram a realidade que pretendem avaliar, e essa realidade alterada modifica, por sua vez, as convicções. Ao contrário das nuvens, que não sabem que alguém as está a prever, os mercados reagem às expectativas dos que neles participam. Uma previsão partilhada por muitos produz efeitos antes de se verificar: se o consenso for o de que determinado resultado eleitoral é o mais provável, o preço dos ativos mais sensíveis a esse resultado ajusta-se antes do voto, e o que permanece por acontecer é apenas aquilo que o consenso não antecipava. Tirar partido de uma previsão exige, por isso, acertar naquilo que a maioria não antecipou e fazê-lo antes de os restantes participantes o reconhecerem, e esta exigência não decorre de insuficiência de informação ou de modelos, mas da própria estrutura do mercado.
Os mercados de previsões mostram-no de forma particularmente clara. No Kalshi, plataforma norte-americana onde se negociam contratos sobre acontecimentos, cada contrato paga 1 dólar se o acontecimento ocorrer e nada se não ocorrer, pelo que o seu preço pode ser lido como a probabilidade que os participantes lhe atribuem. O preço é, ao mesmo tempo, o resultado das expectativas dos participantes e informação com que os restantes formam as suas, que é exatamente o circuito descrito por Soros. A 12 de outubro, esses preços implicavam, em números redondos, uma probabilidade de 90% de os democratas conquistarem a Câmara dos Representantes (10% para os republicanos) e de 61% de conquistarem o Senado (39% para os republicanos). São números publicamente disponíveis e, por isso, não constituem vantagem para ninguém: o que o consenso sabe já está no preço.
Mostram também quão instável é esse consenso. No início de janeiro, a probabilidade atribuída aos democratas no Senado era de 32%; nove meses depois, é de 61%. Na Câmara, oscilou entre 73%, em maio, e 92%, em outubro. Em nenhum dos casos a eleição se tinha realizado: mudaram as expectativas, não os resultados, e quem tivesse ajustado a carteira a cada oscilação teria passado o ano a negociar. Acresce que uma probabilidade de 10% não é uma certeza de que o acontecimento não ocorrerá, e que o que o consenso considera improvável não é impossível.
Agir em função de um resultado eleitoral exige, assim, acertar duas vezes: no resultado e na reação do mercado a esse resultado. A primeira já é incerta, como as probabilidades acima mostram, e a segunda ainda mais. Na noite de 8 para 9 de novembro de 2016, à medida que o desfecho da eleição presidencial se tornava conhecido, os futuros do S&P 500 atingiram o limite de queda de 5%; na sessão seguinte, o índice fechou com uma subida de 1,1%. O resultado era conhecido, e a reação inicial do mercado foi revertida em poucas horas.
Os dados históricos revelam, de facto, algumas regularidades. Em 18 das 20 eleições intercalares realizadas entre 1946 e 2022, o partido do presidente perdeu lugares na Câmara dos Representantes. Segundo a Capital Group, o S&P 500 registou desde 1930 uma rendibilidade média de 4,7% nos anos de eleições intercalares, contra 9,5% nos restantes, com maior volatilidade; e, desde 1950, uma rendibilidade média de 15,4% nos doze meses seguintes às eleições, sem qualquer caso negativo até 2023. Estas observações assentam, porém, num número reduzido de ciclos e descrevem médias, não garantias. Mesmo nos anos considerados mais fracos, a rendibilidade média foi positiva, e quem pretendesse tirar partido do padrão, vendendo antes das eleições e comprando depois, estaria a executar uma estratégia de market timing assente em cerca de vinte observações, com a exigência adicional de acertar duas vezes no momento certo.
Isto não significa que as eleições sejam irrelevantes. O equilíbrio de poderes no Congresso pode influenciar a política orçamental, comercial e regulatória, com efeitos relevantes para determinados setores e empresas. A questão é outra: saber se essa relevância se converte numa vantagem para quem investe, e a evidência indica que não. A Vanguard, com dados desde 1860, não encontra relação estatisticamente significativa entre os anos de eleição presidencial e a rendibilidade de uma carteira com 60% em ações e 40% em obrigações, que foi de 8,7% ao ano nos anos eleitorais e de 7,7% nos restantes, e conclui que as eleições não devem levar o investidor a alterar o seu plano financeiro. A Capital Group, por sua vez, assinala que desde 1933 o mercado registou rendibilidades médias de dois dígitos tanto com o poder concentrado num só partido como com um Congresso dividido ou controlado pela oposição.
Preparar uma carteira para este tipo de acontecimento significa tê-la construída de antemão: com um nível de risco definido de acordo com o perfil e o horizonte do investidor, diversificada entre regiões e classes de ativos, de modo a não depender do que sucede num único país, e com regras estabelecidas à anteriori para o que justifica uma alteração. As eleições intercalares são um cenário entre muitos, a par das decisões de política monetária, dos preços da energia ou das tensões geopolíticas, e uma carteira preparada para diferentes cenários já o contempla.
Preparar-se para uma eleição não consiste em saber quem a ganha, mas em ter uma carteira que não necessita de o saber.
Fontes:
-Soros, G. (1987). The Alchemy of Finance: Reading the Mind of the Market.
-Capital Group, "How US midterm elections affect the markets" (26 de janeiro de 2026; Matt Miller e Chris Buchbinder)
-Vanguard, "Presidential elections matter, but not so much when it comes to your investments" (29 de agosto de 2024)
Resumo
As eleições podem gerar incerteza e volatilidade nos mercados, mas isso não significa que devam levar a alterações numa estratégia de investimento de longo prazo. Antecipar o resultado eleitoral não é suficiente, seria também necessário prever corretamente o impacto económico e a reação dos investidores. Por isso, mais do que tentar adivinhar o que acontecerá depois das eleições, faz sentido manter o foco numa carteira diversificada, adequada ao perfil de risco, aos objetivos e ao horizonte temporal de cada investidor. A disciplina e a consistência continuam a ser mais importantes do que previsões políticas.
Perguntas Frequentes
1As eleições nos Estados Unidos afetam os mercados financeiros?
Podem afetar os mercados no curto prazo, sobretudo através de períodos de maior incerteza ou volatilidade. No entanto, o impacto não é necessariamente previsível nem duradouro.
2É possível prever como os mercados vão reagir a um resultado eleitoral?
Não com consistência. Mesmo que o resultado eleitoral seja antecipado corretamente, continua a ser difícil prever a reação dos mercados, que depende de muitos outros fatores económicos e financeiros.
3A diversificação ajuda a reduzir o impacto de acontecimentos políticos?
Sim. Uma carteira diversificada reduz a dependência de um único mercado, setor ou cenário e ajuda a lidar melhor com diferentes períodos de incerteza.
4O que deve fazer um investidor em períodos de maior incerteza política?
Manter o foco no plano definido, evitar decisões impulsivas e garantir que a carteira continua diversificada e adequada ao seu perfil de risco.
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O design de uma carteira adequada envolve múltiplos fatores — horizonte temporal, tolerância ao risco, estabilidade dos rendimentos e objetivos financeiros. A execução disciplinada, o rebalanceamento regular e o controlo de risco são tão importantes quanto a estratégia inicial.
Autor
Carim Habib
CEO
Executivo sénior com carreira internacional (Londres, Madrid, Frankfurt, Chicago) e com cerca de 30 anos de experiência em mercados financeiros. Especialista em gestão de carteiras e gestão indexada, com percurso em banca de investimento e gestão de ativos internacional. Fundador da DC Gestão Indexada, onde preconiza uma abordagem disciplinada, eficiente e orientada para o longo prazo.
Este artigo tem carácter exclusivamente educativo e informativo. Não constitui aconselhamento personalizado de investimento, recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, nem deve ser interpretado como tal.



