O que são obrigações: como funcionam, tipos e riscos
Construção de Carteiras

O que são obrigações: como funcionam, tipos e riscos

Duarte Correia·Analista de Portfolio Management28 de outubro de 20266 min de leitura

Principais Conclusões

  • 1

    As obrigações são títulos de dívida emitidos por empresas, públicas ou privadas, ou pelo Estado, e quem as detém é credor, não sócio.

  • 2

    Quando uma obrigação é admitida à cotação, as suas características constam do prospeto, entre elas o emitente, o prazo e o cupão.

  • 3

    Numa obrigação de taxa fixa, os montantes e as datas dos pagamentos são conhecidos desde a emissão, desde que o emitente cumpra.

  • 4

    O preço de uma obrigação é o valor de hoje dos seus pagamentos futuros, calculado com base no valor temporal do dinheiro.

  • 5

    A taxa implícita soma a taxa de juro de mercado e o spread de crédito do emitente, e varia em sentido inverso ao preço.

  • 6

    Vender antes da maturidade pode gerar mais-valias ou menos-valias; quem mantém a obrigação até ao fim recebe o que foi contratado, desde que o emitente cumpra.

  • 7

    Entre os riscos a considerar na análise de uma obrigação estão os de crédito, de taxa de juro, de liquidez, de inflação e cambial.

Obrigações são títulos de dívida emitidos por empresas, públicas ou privadas, ou pelo Estado. Para o emitente, as emissões de obrigações são alternativas à obtenção de crédito junto de entidades financeiras, pela facilidade de acesso ao mercado e pelos elevados montantes necessários para fazer face aos investimentos planeados. Neste artigo, pretendemos introduzir as características mais relevantes destes instrumentos: os elementos que os definem, o que faz variar o seu preço até à maturidade e os riscos que envolvem.

O que é uma obrigação

Uma obrigação é um título de dívida. Cada emissão é composta por um conjunto de títulos com as mesmas condições, que os investidores subscrevem no momento da emissão (mercado primário). Depois disso, muitas obrigações são compradas e vendidas entre investidores até à maturidade (mercado secundário), e é aí que se forma o seu preço.

A diferença face a uma ação está na posição de quem investe. O acionista é sócio da empresa e participa nos seus resultados, sejam lucros ou prejuízos. O obrigacionista é credor: não tem qualquer propriedade sobre o emitente, e o que tem a receber está definido no contrato, desde que o emitente cumpra.


A anatomia de uma obrigação: emitente, prazo e cupão

Quando uma obrigação é admitida à cotação, toda a informação relevante sobre a emissão fica definida num documento, o prospeto. Dentro daquilo que fica definido, destacamos os seguintes elementos.

O emitente. É a entidade que pede o dinheiro emprestado: o Estado, na dívida pública (como as Obrigações do Tesouro em Portugal), ou uma empresa, pública ou privada, nas obrigações de empresas (dívida corporativa). A capacidade do emitente para cumprir os pagamentos é a sua qualidade de crédito.

O prazo. É o tempo até à maturidade, a data em que o empréstimo termina e o emitente reembolsa o valor nominal, o montante emprestado por título. Pode ir de poucos meses a várias décadas.

O cupão. É a remuneração periódica do investidor, expressa em percentagem do valor nominal e paga com uma frequência definida, por exemplo anual ou semestral. O seu nível depende do risco de crédito do emitente e das taxas de juro de mercado no momento em que é fixado. Pode ser determinado de quatro formas:

  • Taxa fixa: o cupão é fixado na emissão e mantém-se até à maturidade. Os montantes e as datas de todos os pagamentos são conhecidos desde o início, desde que o emitente cumpra.

  • Taxa variável: o cupão é revisto periodicamente em função de uma taxa de referência, como a Euribor, acrescida de uma margem.

  • Indexada: o cupão, ou o próprio valor nominal, acompanha outro ativo ou indicador. Nas indexadas à inflação, protege os pagamentos da inflação medida pelo índice de referência, mas o preço continua a variar em mercado.

  • Cupão zero: não há pagamentos periódicos. A obrigação é comprada abaixo do valor nominal, e a remuneração resulta da diferença para o valor reembolsado.

Algumas obrigações acrescentam a estes elementos condições mais específicas. Podem prever o reembolso antecipado do capital, por decisão do emitente (opção call) ou do investidor (opção put), ou a possibilidade de conversão das obrigações em ações ou noutros ativos.

A senioridade, por fim, define a ordem de pagamento em caso de insolvência do emitente. As obrigações seniores têm prioridade sobre as subordinadas, que, por isso, oferecem em regra uma rendibilidade mais elevada. Umas e outras têm prioridade sobre os acionistas.


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O que faz variar o preço de uma obrigação

Numa obrigação de taxa fixa, o cupão e o valor nominal não mudam depois da emissão, mas mudam as duas variáveis em função das quais o cupão foi fixado: o risco de crédito do emitente e as taxas de juro de mercado. É o preço no mercado secundário que se ajusta a elas.

Conhecidas as características da obrigação (cupão, valor nominal e maturidade) e o seu preço de mercado, é possível calcular uma taxa implícita, também chamada rendibilidade até à maturidade (yield): a rendibilidade anual de quem compra a esse preço e mantém a obrigação até ao fim. Esta taxa varia em sentido inverso ao preço, porque quanto mais se paga pelos mesmos pagamentos futuros, menor a rendibilidade que se obtém com eles.

A taxa implícita é a soma de duas componentes:

  • a taxa de juro de mercado para o prazo da obrigação, que remunera o tempo durante o qual o dinheiro fica emprestado;

  • o spread de crédito, a remuneração adicional que os investidores exigem pelo risco do emitente.

Quando uma destas componentes sobe, os investidores passam a exigir uma taxa implícita mais elevada e, como os pagamentos estão fixos, o preço desce. Quando desce, o preço sobe.

Um exemplo ilustrativo. O cálculo da taxa implícita assenta no valor temporal do dinheiro - um euro recebido no futuro vale menos do que um euro hoje, porque o euro de hoje pode ser aplicado e render entretanto. O preço de uma obrigação é o valor de hoje dos seus pagamentos futuros, e a taxa implícita é a taxa que faz esse valor coincidir com o preço.

Considere-se uma obrigação com valor nominal de 1.000 euros, cupão de 3% (30 euros por ano) e dez anos até à maturidade:

  1. Ao preço de 1.000 euros, a taxa implícita é de 3%, igual ao cupão.

  2. Ao preço de 919 euros, a taxa implícita sobe para cerca de 4%: os mesmos pagamentos custam menos, e a diferença de 81 euros para o valor nominal soma-se aos cupões.

  3. Ao preço de 1.090 euros, a taxa implícita desce para cerca de 2%: paga-se mais pelos mesmos pagamentos, e a diferença de 90 euros acima do valor nominal perde-se na maturidade.

Para a mesma variação da taxa implícita, a variação do preço é tanto maior quanto mais longo for o prazo até à maturidade.

Estas variações afetam quem vende antes da maturidade, que regista uma mais-valia ou uma menos-valia. Quem mantém a obrigação até ao fim recebe os cupões e o valor nominal contratados, desde que o emitente cumpra.

As taxas de juro não alteram o que uma obrigação de taxa fixa paga. Alteram o preço que alguém está disposto a pagar por ela.


Os riscos de uma obrigação

Entre os riscos a considerar na análise de uma obrigação, destacamos os seguintes.

  1. Risco de crédito: a possibilidade de o emitente não pagar os cupões ou não reembolsar o capital, no todo ou em parte, porque a sua situação financeira não o permite. Por isso importa conhecer a capacidade de pagamento do emitente e a existência, ou não, de uma terceira entidade que assuma esses pagamentos caso o emitente falhe.

  2. Risco de taxa de juro: a descida do preço quando as taxas de juro de mercado sobem, descrita acima, que se traduz numa menos-valia para quem vende antes da maturidade.

  3. Risco de liquidez: a dificuldade de vender uma obrigação rapidamente sem aceitar um preço mais baixo. Avalia-se pela liquidez da emissão, quando a obrigação é comprada no mercado secundário, ou pelas perspetivas de liquidez, quando é subscrita no mercado primário.

  4. Risco de inflação: numa obrigação de taxa fixa, os pagamentos estão definidos à partida. Se a inflação for mais elevada do que a esperada, esses pagamentos compram menos, e a rendibilidade real (descontada a inflação) diminui.

  5. Risco cambial: numa obrigação emitida noutra moeda, os pagamentos são feitos nessa moeda, e o seu valor em euros varia com a taxa de câmbio.

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Resumo

As obrigações são títulos de dívida cujas características, como o emitente, o prazo e o cupão, ficam definidas na emissão. O seu preço é o valor de hoje dos pagamentos futuros, e a taxa implícita que dele resulta reflete, em cada momento, a taxa de juro de mercado e o spread de crédito do emitente. Conhecer estes elementos é o que permite comparar obrigações entre si e perceber os riscos que cada uma envolve.

Perguntas Frequentes

1As obrigações podem perder valor?

Sim. O preço desce quando sobe a taxa implícita exigida pelo mercado, seja por subida das taxas de juro de mercado ou do spread de crédito do emitente, e quem vende antes da maturidade regista uma menos-valia. Pode também perder-se capital se o emitente não cumprir. Uma obrigação não constitui garantia de capital.

2Qual é a diferença entre o cupão e a taxa implícita?

O cupão é fixado na emissão e determina os pagamentos, em percentagem do valor nominal. A taxa implícita resulta do preço de mercado e é a rendibilidade anual de quem compra a esse preço e mantém a obrigação até à maturidade. As duas só coincidem quando a obrigação é negociada ao valor nominal.

3Qual é a diferença entre uma obrigação e um depósito a prazo?

Um depósito a prazo é feito junto de um banco, não é negociado em mercado e o seu valor não oscila. Está coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100.000 euros por depositante e por instituição. Uma obrigação não tem essa cobertura, pode ser vendida em mercado antes da maturidade e o seu preço varia até lá.

4Numa carteira com muitas obrigações, também se pode esperar pela maturidade?

Não da mesma forma. Uma carteira ou um instrumento que agrega muitas obrigações não tem, em regra, uma maturidade única: os títulos que se aproximam do fim são substituídos por outros. A sensibilidade do conjunto às taxas de juro mede-se pela duração, o prazo médio ponderado dos pagamentos, que se compara com o horizonte de quem investe.

5O que é o rating de uma obrigação?

É a avaliação, feita por uma agência de notação de crédito, da capacidade de um emitente para pagar a sua dívida. Na escala da S&P e da Fitch, vai de AAA, a mais elevada, até D, que corresponde a incumprimento, e o grau de investimento (investment grade) abrange as classificações a partir de BBB- (Baa3, na Moody's); abaixo desse limite, as obrigações são de grau especulativo (high yield). Em regra, quanto mais baixa a classificação, maior o spread de crédito exigido. O rating é uma opinião, não uma garantia, e pode ser revisto ao longo da vida da obrigação.

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Autor

DC

Duarte Correia

Analista de Portfolio Management

Analista de Portfolio Management na DC, com foco na construção, acompanhamento e otimização de carteiras de investimento alinhadas com os objetivos e perfil de risco de cada cliente.

Este artigo tem carácter exclusivamente educativo e informativo. Não constitui aconselhamento personalizado de investimento, recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, nem deve ser interpretado como tal.

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