Quanto dinheiro deve manter disponível antes de investir?
Planeamento Financeiro

Quanto dinheiro deve manter disponível antes de investir?

Pedro Teles·Diretor de Portfolio Management23 de setembro de 20264 min de leitura

Principais Conclusões

  • 1

    Há liquidez que resulta de uma decisão e liquidez que resulta de acumulação sucessiva. Só a primeira cumpre uma função.

  • 2

    Manter capital em liquidez tem dois custos permanentes: o custo de oportunidade e a perda de poder de compra.

  • 3

    O planeamento financeiro evita que fique capital por investir sem que isso tenha sido decidido.

  • 4

    O fundo de emergência situa-se geralmente entre seis e doze meses de despesas, consoante a previsibilidade do rendimento e a capacidade de resposta já existente.

  • 5

    Para o planeamento financeiro, é necessário considerar também a liquidez operacional, que faz face às despesas recorrentes de curto prazo.

Um dos pontos mais importantes do planeamento financeiro é dimensionar com critério a liquidez a manter. É a decisão que separa o capital que tem de estar disponível de imediato daquele que pode ser investido com um horizonte longo. A liquidez que fica disponível permite responder a um imprevisto, ou a uma interrupção de rendimento, sem obrigar a desfazer posições de longo prazo no momento em que isso for menos conveniente. Neste artigo separamos as duas funções que a liquidez desempenha, identificamos as variáveis que determinam o valor adequado a cada uma, e tratamos o destino do capital que as excede.

As duas funções do dinheiro que mantém disponível

A liquidez que se mantém disponível cumpre duas funções distintas, que se dimensionam por critérios diferentes. Separá-las é o primeiro passo do cálculo.

  1. Liquidez operacional. É o capital que assegura a despesa de cada mês: prestações, rendas, serviços, cartões. O seu valor decorre diretamente dessa despesa e repõe-se a cada entrada de rendimento, pelo que não exige um cálculo próprio.
  2. Fundo de emergência. Responde ao que não estava previsto, seja uma despesa inesperada ou uma interrupção de rendimento, e existe para que essas situações não obriguem a alterar o que está decidido para o restante património. Dimensiona-se em meses de despesa, pelo método da secção seguinte. Manter um número de meses acima do que o cálculo produz permite acomodar uma preferência individual por maior margem sem comprometer o método, desde que esses meses sejam acrescentados de forma explícita e não confundidos com o valor calculado.

O cálculo do fundo de emergência

A referência situa-se geralmente entre seis e doze meses de despesas. O intervalo é amplo porque a posição dentro dele depende de três variáveis.

  1. A previsibilidade do rendimento. Quem tem um salário estável, com proteção legal em caso de cessação, está numa situação diferente de quem trabalha por conta própria com faturação irregular, ou de quem tem uma componente variável significativa. Quanto menos previsível é o rendimento, mais meses a reserva deve cobrir.
  2. A despesa que não se consegue cortar. É a variável que mais altera o resultado, porque determina a base a que o número de meses se aplica. Quem tem quase toda a despesa em prestações, seguros e contas fixas tem pouco para reduzir, e deve contar a despesa total. Quem tem uma parte relevante em despesa adiável pode contar apenas a que subsiste depois desse corte.
  3. Outras considerações. Um segundo rendimento no agregado, ou ativos que se conseguem vender sem perda relevante, são capacidade de resposta já disponível. Considerá-la evita construir duas vezes a mesma proteção.

O custo de ter dinheiro parado

O capital mantido em liquidez suporta dois custos, que existem em simultâneo e se acumulam ao longo do tempo.

  1. Custo de oportunidade. O capital em liquidez fica fora da expectativa de rendibilidade de longo prazo de uma carteira diversificada. Não é uma perda observável, é uma rendibilidade que não chega a existir, e o seu peso cresce com o tempo durante o qual o capital se mantém disponível por não lhe ter sido atribuída função no plano.
  2. Perda de poder de compra. A inflação reduz o valor real de um saldo que se mantém nominalmente igual. O número na conta não muda, mas o que esse número compra diminui a cada ano, e a perda não aparece em nenhum extrato. É o efeito que tratámos em detalhe a propósito das poupanças paradas.

Nenhum destes custos é argumento contra manter liquidez. São a razão para a dimensionar, porque incidem exatamente da mesma forma sobre o capital que cumpre uma função e sobre o que está na conta sem razão definida.

Liquidez por decisão e liquidez por inércia

Fixado o valor das duas funções, o saldo em liquidez que as exceda tem uma de duas origens. Ou resulta de uma decisão, e responde a uma pergunta concreta sobre para que serve e quando será utilizado, ou resulta de acumulação sucessiva, sem que nenhuma decisão tenha sido tomada. No segundo caso suporta os dois custos da secção anterior sem qualquer contrapartida. É no planeamento financeiro que esse excedente encontra destino. Com o DC360, evita que fique capital por investir sem que isso tenha sido decidido. Na ausência desse exercício, o capital mantém-se indefinidamente em liquidez, a suportar ambos os custos.

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Resumo

Manter liquidez é essencial para assegurar as despesas correntes e responder a imprevistos, mas o montante adequado depende da previsibilidade dos rendimentos, das despesas que não se conseguem reduzir e da capacidade de resposta já existente. O objetivo não é eliminar o dinheiro disponível, mas dimensioná-lo com critério. O capital que excede estas necessidades deve receber uma função e um horizonte temporal definidos, evitando que permaneça parado por falta de decisão e sujeito ao custo de oportunidade e à perda de poder de compra.

Perguntas Frequentes

1Quanto dinheiro se deve manter disponível?

O valor resulta da soma de dois montantes com critérios próprios: a liquidez que assegura a despesa de cada mês e a reserva para imprevistos. O primeiro decorre diretamente da despesa mensal. O segundo dimensiona-se em meses de despesa, em função da previsibilidade do rendimento e da parte da despesa que não se consegue cortar.

2Quantos meses de despesa deve ter um fundo de emergência?

A referência situa-se geralmente entre seis e doze meses. A posição dentro desse intervalo não é indiferente: aproxima-se do limite superior quando o rendimento é menos previsível, e do inferior quando existe um segundo rendimento no agregado ou outra capacidade de resposta já disponível. Em qualquer dos casos, a decisão anterior é determinar a que despesa o número se aplica.

3A despesa a considerar é a total ou apenas a essencial?

Depende do cenário que a reserva serve. Se serve uma interrupção temporária de rendimento, a base razoável é a despesa que subsiste depois de cortar o que é adiável, porque é isso que acontece nessa situação. Contar a despesa total produz uma reserva maior, o que é uma escolha defensável desde que seja uma escolha e não um lapso de cálculo.

4O que fazer com o dinheiro que fica parado na conta?

Depois de assegurada a despesa do mês e constituído o fundo de emergência, o capital que sobra está disponível para ser investido. A decisão começa por atribuir-lhe uma função e um horizonte: capital com uma data conhecida e próxima pede uma carteira de curto prazo, destinada a liquidez e estabilidade de valor, e capital sem data próxima pede uma carteira desenhada para o horizonte longo. A escolha do instrumento vem depois dessa definição, não antes.

5O fundo de emergência é a mesma coisa que capital de curto prazo?

São funções diferentes, ainda que possam partilhar a mesma estrutura. O fundo de emergência não tem data e dimensiona-se pelas despesas correntes, porque existe para o imprevisto. O capital de curto prazo tem uma data conhecida e dimensiona-se pelo valor do compromisso a cumprir. No DC360, o fundo de emergência é, em regra, aplicado numa carteira de curto prazo, pelo critério que ambos partilham: disponibilidade e reduzida oscilação de valor.

6Com que frequência se deve rever este valor?

Sempre que mudar uma das variáveis que o determinam: a previsibilidade ou a origem do rendimento, a estrutura da despesa fixa, ou a capacidade de resposta que já existe. Uma mudança de emprego, um novo crédito ou a entrada de um dependente alteram o dimensionamento, mesmo que a despesa total se mantenha.

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Autor

PT

Pedro Teles

Diretor de Portfolio Management

Profissional com 9 anos de experiência em mercados financeiros, especializado em gestão de carteiras e gestão indexada. Na DC, lidera a área de Portfolio Management, sendo responsável pela construção, acompanhamento e otimização de carteiras de investimento alinhadas com os objetivos, horizonte temporal e perfil de risco de cada cliente. É Chartered Financial Analyst (CFA) e possui um Mestrado em Finanças pela ESADE, um Mestrado em Gestão Internacional (CEMS/ESADE e University of Sydney) e uma Licenciatura em Economia pela Nova SBE.

Este artigo tem carácter exclusivamente educativo e informativo. Não constitui aconselhamento personalizado de investimento, recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, nem deve ser interpretado como tal.

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