Onde investir dinheiro: o que fazer com o dinheiro que está parado
Planeamento Financeiro

Onde investir dinheiro: o que fazer com o dinheiro que está parado

Duarte Correia·Analista de Portfolio Management14 de outubro de 20268 min de leitura

Principais Conclusões

  • 1

    Antes de decidir onde investir, separa-se o que deve ficar disponível: a despesa corrente, o fundo de emergência e o capital com data marcada.

  • 2

    O que define o dinheiro parado não é a conta onde está, é a ausência de uma decisão sobre o seu destino.

  • 3

    O dinheiro parado perde poder de compra sempre que a inflação supera a remuneração líquida que obtém.

  • 4

    O custo de oportunidade cresce mais do que proporcionalmente com o tempo, por efeito composto.

  • 5

    Para o capital sem uso previsto nos próximos anos, a estrutura adequada é, em regra, uma carteira diversificada, de custos reduzidos, desenhada para o longo prazo e mantida com rebalanceamento periódico.

  • 6

    A proporção entre ações e obrigações depende da capacidade e da tolerância ao risco de quem investe.

Onde investir dinheiro que está parado na conta? A resposta mais útil não começa num produto. Começa numa pergunta mais simples: quando vai precisar desse dinheiro? O dinheiro de que pode precisar a qualquer momento, como o fundo de emergência, e o dinheiro guardado para um compromisso com data marcada devem continuar disponíveis. O que sobra, sem uso previsto nos próximos anos, é o que faz sentido investir. Para esse dinheiro, a estrutura adequada é, em regra, uma carteira diversificada de longo prazo, ajustada ao seu perfil de risco. Neste artigo explicamos como fazer essa separação, como reconhecer o dinheiro que está parado, quanto custa mantê-lo assim e o que deve ter uma carteira para o investir com critério.

Antes de investir: o fundo de emergência e o dinheiro com data marcada

Antes de investir, convém pôr de parte o dinheiro de que pode vir a precisar em breve. Esse dinheiro deve continuar disponível, e é ele que permite que o resto fique investido mesmo quando surge um imprevisto. São três os destinos que justificam manter dinheiro disponível.

1. A despesa corrente. O capital que assegura a despesa dos próximos meses (prestações, rendas, serviços) decorre diretamente da despesa mensal e repõe-se a cada entrada de rendimento. Não exige cálculo próprio.

2. O fundo de emergência. Responde a uma despesa inesperada ou a uma interrupção de rendimento. A referência situa-se geralmente entre seis e doze meses de despesas, e a posição dentro desse intervalo depende de três variáveis: a previsibilidade do rendimento, a parte da despesa que não se consegue reduzir e a capacidade de resposta que já existe no agregado, como um segundo rendimento. O método completo está desenvolvido no artigo sobre quanto dinheiro deve manter disponível antes de investir.

3. O capital com data marcada. Um compromisso conhecido e próximo, como a entrada de uma casa, uma obra ou a educação dos filhos, pede que o valor previsto esteja disponível na data prevista. O que define este capital não é o montante, é a data.

O horizonte de cada compromisso orienta a estrutura que lhe corresponde. Até um ano, a prioridade é a liquidez e a estabilidade de valor. Entre um e três anos, há espaço para um equilíbrio entre estabilidade e alguma valorização. A partir daí, o capital entra no território do longo prazo.

Como reconhecer dinheiro parado

Feita a separação, o capital que sobra não tem função atribuída nem data de utilização. É esse que corresponde, com propriedade, a dinheiro parado. O que o define não é a conta onde está, é a ausência de uma decisão sobre o seu destino.

Alguns sinais ajudam a identificá-lo.

1. Um saldo acima do fundo de emergência que cresce de mês para mês sem que se saiba para que vai servir.
2. Capital reservado para um objetivo que mudou de data ou deixou de existir, e que continua no mesmo sítio por não ter sido reavaliado.
3. Aplicações renovadas automaticamente no fim de cada prazo, sem uma nova decisão sobre se continuam a ser adequadas.
4. Capital à espera de uma decisão sem data nem critério para ser tomada.

O critério é simples: se existe uma resposta concreta para o que esse capital vai financiar e quando, tem função; se não existe, está parado.

Quanto custa manter dinheiro parado: poder de compra e efeito composto

O capital sem função suporta dois custos, que existem em simultâneo e não aparecem em nenhum extrato.

O primeiro é a perda de poder de compra. Um saldo que se mantém nominalmente igual perde valor real sempre que a inflação supera a remuneração que obtém. Essa remuneração deve ser lida em três passos: a taxa anunciada (nominal), a taxa depois de impostos (líquida) e a taxa depois da variação de preços (real). Só a última diz se o capital mantém o que consegue comprar. O efeito sobre as poupanças paradas está tratado em detalhe neste artigo.

O segundo é o custo de oportunidade: o capital parado fica fora da rendibilidade que se pode esperar, no longo prazo, de uma carteira diversificada. Este custo depende de duas variáveis, a diferença entre o que o capital obtém parado e o que se pode esperar de uma carteira desenhada para o seu horizonte, e o tempo durante o qual essa diferença se mantém.

O tempo pesa mais do que proporcionalmente, por causa do efeito composto. Numa carteira investida, a rendibilidade de cada ano passa a gerar rendibilidade nos anos seguintes, pelo que o capital cresce sobre uma base que também cresce. Um capital que fica parado não perde apenas a rendibilidade de cada ano: perde também a que essa rendibilidade teria gerado depois. Aritmeticamente, o custo de dez anos de capital parado é superior ao dobro do custo de cinco.

A estabilidade do número na conta é real. A estabilidade do que esse número compra, e do que poderia vir a valer, não é.

Quer implementar uma estratégia personalizada?

A estratégia certa depende do seu perfil

O design de uma carteira adequada envolve múltiplos fatores — horizonte temporal, tolerância ao risco, estabilidade dos rendimentos e objetivos financeiros. A execução disciplinada, o rebalanceamento regular e o controlo de risco são tão importantes quanto a estratégia inicial.

Onde investir dinheiro parado: uma carteira diversificada de longo prazo

Para o capital sem uso previsto nos próximos anos, a estrutura adequada é, em regra, uma carteira diversificada desenhada para o longo prazo.
Quatro características definem-na.

1. Diversificação global. O risco de uma carteira tem duas componentes: o risco específico de cada empresa ou emitente, e o risco do mercado como um todo. A exposição a um número elevado de empresas, setores, geografias e moedas torna o risco específico residual, porque os acontecimentos que afetam cada empresa não estão perfeitamente correlacionados entre si. O que fica é o risco de mercado, que é aquele a que está associada a rendibilidade que se pode esperar de uma carteira de ações. A combinação de ações e obrigações acrescenta a diversificação entre classes de ativos.

2. Custos reduzidos. O custo de uma carteira soma várias camadas: a comissão de gestão, os custos dos instrumentos que a compõem e os custos de transação. Num horizonte de vários anos, os custos acumulam-se sobre o capital da mesma forma que a rendibilidade, por efeito composto, mas em sentido contrário. A gestão indexada reduz essa componente ao mínimo, e a rendibilidade que conta para o investidor é sempre a líquida de todos os custos.

3. Horizonte longo. Uma carteira com exposição a ações oscila de valor, por vezes de forma significativa. O horizonte longo é o que dá tempo para atravessar essas oscilações sem ter de vender no momento menos conveniente. O horizonte é uma característica do capital, e não da pessoa: o mesmo investidor pode ter capital de curto prazo e capital de longo prazo, e cada um pede uma estrutura diferente. É por isso que o fundo de emergência e o capital com data ficam fora desta carteira.

4. Manutenção ao longo do tempo. Com o movimento dos mercados, o peso de cada componente da carteira afasta-se do que foi definido. O rebalanceamento periódico repõe essas proporções e mantém o risco da carteira alinhado com o perfil de quem investe. A carteira é também revista sempre que muda um objetivo, um prazo ou a situação financeira. Uma carteira de longo prazo não é uma decisão tomada uma vez. É uma estrutura mantida.

O perfil de risco define a composição da carteira

A proporção entre ações e obrigações dentro dessa carteira depende do perfil de risco de quem investe, que tem duas dimensões distintas.

1. A capacidade de risco decorre da situação financeira: a estabilidade do rendimento, o património, a existência de um fundo de emergência adequado e o horizonte do capital. Mede quanta oscilação o património consegue suportar sem comprometer os objetivos.

2. A tolerância ao risco decorre da forma como cada pessoa reage à oscilação: a amplitude de variação que consegue observar e manter sem alterar a estratégia. É uma variável de comportamento, e não se deduz de nenhum balanço.

As duas dimensões contam, e o conhecimento e a experiência de quem investe também. O teste de perfil de investidor avalia-as em conjunto com os objetivos e o horizonte, ao longo de 16 perguntas, e indica a carteira que lhes corresponde.

Uma decisão de horizonte, não de produto

A pergunta sobre onde investir dinheiro parado tem uma resposta concreta, mas só depois de separado o capital pelo seu destino. O fundo de emergência e o capital com data marcada ficam disponíveis com propósito, e o capital sem uso previsto ganha a estrutura que o seu horizonte permite.
O que decide não é onde o dinheiro está hoje. É quanto tempo pode ficar investido.

R

Resumo

Dinheiro parado é o que sobra depois de assegurados o fundo de emergência e o capital com data marcada. O seu custo cresce com o tempo, e a resposta adequada é uma carteira diversificada de longo prazo, mantida ao longo do tempo e com a exposição ao risco que o perfil de cada investidor comporta.

Perguntas Frequentes

1O dinheiro de que vou precisar daqui a dois anos também deve ir para uma carteira de longo prazo?

Não. Capital com uma data de utilização próxima não tem tempo para recuperar de uma oscilação de valor antes de ser necessário. A estrutura adequada é orientada para a estabilidade de valor e, no horizonte de um a três anos, para um equilíbrio entre estabilidade e alguma valorização. A carteira de longo prazo serve o capital sem uso previsto nos próximos anos.

2É possível investir dinheiro sem risco?

Não existe aplicação sem nenhum risco; existe a escolha de que risco se aceita. O dinheiro mantido disponível não oscila de valor, mas está exposto à perda de poder de compra. Uma carteira de longo prazo está exposta à oscilação de valor, mas tem tempo para a atravessar. Por isso, a escolha depende sobretudo do horizonte: o dinheiro de que vai precisar em breve pede estabilidade, e o dinheiro sem uso previsto pode aceitar oscilação.

3Investir dinheiro parado numa carteira de longo prazo tem risco?

Tem. Uma carteira com exposição a ações oscila de valor e pode registar perdas temporárias, por vezes significativas, e rendibilidades passadas não constituem garantia de rendibilidades futuras. A diversificação torna residual o risco específico de cada empresa, o horizonte longo dá tempo para atravessar as oscilações, e o perfil de risco define quanta exposição a ações faz sentido em cada caso.

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Autor

DC

Duarte Correia

Analista de Portfolio Management

Analista de Portfolio Management na DC, com foco na construção, acompanhamento e otimização de carteiras de investimento alinhadas com os objetivos e perfil de risco de cada cliente.

Este artigo tem carácter exclusivamente educativo e informativo. Não constitui aconselhamento personalizado de investimento, recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, nem deve ser interpretado como tal.

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